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OS AMIGOS

  • raphaeldejesusreda
  • 8 de mar.
  • 9 min de leitura

Peça em um ato e duas cenas

Por: Raphael de Jesus

CENA I


A entrada de um teatro, com cartazes de outros espetáculos pendurados nas paredes.

Entram ARTHUR e BRENDA, vindos de dentro do teatro. Ela está com o cabelo solto e bem vestida. Ele está usando moletom e calça jeans.


ARTHUR - E aí? Eu começo ou você?

BRENDA - Vai você.

ARTHUR - Achei uma das melhores peças que eu já vi. E você?

BRENDA - Não sei se eu gostei…

ARTHUR - Por quê?

BRENDA - Ah, sei lá… preciso pensar ainda. Achei muito violenta. Aquele Paco me deu medo.

ARTHUR - Não é pra menos, ele era completamente louco. O Wenry é muito bom.

BRENDA - Sim, ele é muito bom ator, mas fiquei desconfortável.

ARTHUR - E do Tonho, o que achou?

BRENDA - Deu muita dó dele, principalmente por ter sido assassinado. Não merecia isso.

ARTHUR - O William interpretou ele com grande verdade. Me cortava o coração quando ele dizia: “mas eu estudei…” Mesmo sendo um cara alto e forte, ele estava completamente desolado. Não à toa lutava tanto pra ter aquele sapato, mas a vida não foi muito justa com ele.

BRENDA - E aquela cena da briga? Pensei que os atores fossem cair em cima da gente! Teve uma hora que me deu vontade de levantar e separar eles.


Os dois riem.


BRENDA - O teatro era tão pequenininho!

ARTHUR - Isso que é legal! Muita gente de teatro com quem eu falo me diz que a experiência fica mais intimista assim. As emoções ficam mais intensas, ainda mais numa peça como essa.

BRENDA - Mas confesso que fiquei muito nervosa na hora, não gosto de ver coisas pesadas.

ARTHUR - É, o Plínio Marcos é assim mesmo. As personagens brigam, xingam, falam palavrão. É normal. E isso que você não viu “O Abajur Lilás”: tem até tortura, tiros, ali no palco, diante dos seus olhos. Porque ele mostra o que há de pior na vida, de um modo realista, brutalmente realista. E eu acho isso nele muito verdadeiro. E a verdade não é conveniente.

BRENDA - Ah sim, sentar no chão foi uma experiência brutalmente realista pro meu traseiro.


Brenda ri sozinha.


BRENDA - Das peças que a gente viu, a que eu mais gostei foi “O Vira-Lata”. Tão divertida! Os atores eram maravilhosos!

ARTHUR - Eu também gostei.

BRENDA - E a pior foi aquela “Ovos não têm Janela”.

ARTHUR - Pois é, os atores eram ótimos, mas o texto era muito ruim.


Os dois riem novamente.


BRENDA - Bom, já vou indo. Valeu pela peça!

ARTHUR - Imagina, obrigado por ter vindo!

BRENDA - Tá sabendo se vai rolar outra?

ARTHUR - Sim, semana que vem vai ter “Bonitinha, mas Ordinária”, do Nelson.

BRENDA - Que nome! 


Brenda ri.


BRENDA - Vamos?

ARTHUR - Claro!

BRENDA - Beleza, a gente combina então. Tchau!


Arthur anda ao encontro de Brenda.


ARTHUR - Um beijo?

BRENDA - Na bochecha?

ARTHUR - Não…

BRENDA - Só amizade.

ARTHUR - A gente podia tentar né?

BRENDA - Ah, então era esse o intuito?

ARTHUR - E qual é o problema?

BRENDA - Porque nós somos amigos.

ARTHUR - Mas amigos não podem ficar?

BRENDA - Podem… mas não é o caso.

ARTHUR - Mas a gente se dá tão bem! Saímos várias vezes, temos interesses parecidos. Não vejo porque não poderia dar certo.

BRENDA - Eu não sinto o mesmo, desculpa. E não é bom forçar.

ARTHUR - Eu não estou forçando, só tentando. É que nesse tempo que a gente foi passando junto, eu fui te conhecendo melhor, gostando de você e resolvi arriscar. Seria um sonho namorar com você. Por que a gente não poderia tentar?

BRENDA - Porque não é o que eu quero.

ARTHUR - E o que você quer?


Brenda hesita por um momento.


BRENDA - Borboletas no estômago.

ARTHUR - Como assim?

BRENDA - Olha Arthur, eu gosto muito de você, dos nossos rolês culturais, mas eu não consigo ver nada além disso. Eu sou uma mulher intensa e eu acho que entre a gente não rola nada que me faça me sentir assim.

ARTHUR - Mas a vida não é só emoção.

BRENDA - Eu sei que não, mas eu sigo o meu coração em primeiro lugar.

ARTHUR - Acho que você podia ver as coisas de outro modo. Eu sou um cara…

BRENDA (cortando) - Você é um cara que quer casar, ter uma família e eu não quero casar, não quero filhos e acho que eu sou não-monogâmica.

ARTHUR - Mas eu não quero isso agora.

BRENDA - Mesmo assim.

ARTHUR - Isso me parece imaturo.

BRENDA - Por quê?

ARTHUR - Porque por mais prazerosa que possa parecer essa vida, acho que demanda um certo esforço pra sair com outras pessoas. Tempo, dinheiro, emocional: você nunca vai conseguir desenvolver algo profundo assim. Pra falar a verdade, eu nem sei como é que faz isso. A minha vida é só do trabalho pra casa e da casa pro trabalho. Vou a peças, leio livros, vejo filmes. Sou um cara muito simples.

BRENDA - Nem todo mundo é igual. Eu não valorizo as mesmas coisas que você e tá tudo bem. Mas ainda podemos ser amigos. Tá bem?

ARTHUR - Tudo bem.


Brenda estende os braços e Arthur a abraça.


BRENDA - Tchau. Se cuida.

ARTHUR - Tchau.


Brenda sai.

Arthur fica parado, sozinho. Pega o celular e abre um aplicativo.

Trevas.


CENA II


Uma praça com um banco.

Brenda está sentada nesse banco, com o cabelo preso, usando óculos e com uma postura contraída.

Arthur está de pé, vestido de modo elegante e com um ar sereno e autoconfiante.


BRENDA - E se a gente tentasse agora?

ARTHUR - Não, obrigado.

BRENDA - Por quê?

ARTHUR - O nosso tempo já passou.

BRENDA - Mas você ainda me acha atraente?

ARTHUR - Acho.

BRENDA - Então por quê não tentar?

ARTHUR - Porque eu segui em frente. Foi difícil, mas se eu ficasse com você agora, seria um passo atrás pra mim.

BRENDA - Acho que você deveria fazer como qualquer outro. Eu tô aqui, me oferecendo e você só deveria aproveitar. E se não rolar, não rolou. Não seja trouxa, às vezes a vida te dá uma oportunidade e é só agarrar.

ARTHUR - Mas eu não sou assim.

BRENDA - Tá solteiro ainda?

ARTHUR - Sim.

BRENDA - É por isso que ainda está nessa.

ARTHUR - Eu prefiro. Às vezes é preciso abrir mão de certas coisas quando se tem em vista algo maior. O nome disso é sacrifício.


Há um breve silêncio entre os dois.


BRENDA - Doeu muito né?

ARTHUR - O quê?

BRENDA - Eu ter te rejeitado.

ARTHUR - Muito.

BRENDA - Desculpa. Mesmo.

ARTHUR - Claro, sem problemas.

BRENDA - Isso me irrita em você! Qual é o seu objetivo? Ser algum tipo de santo?

ARTHUR - Não, eu sou apenas um homem, bem resolvido. Não era pra ter dado certo entre a gente e eu não tenho mais que me preocupar com isso. Eu só não entendo o que aconteceu pra você ter mudado de ideia tanto tempo depois.

BRENDA - Foi por causa do que eu vivi nesse meio tempo. Sabe, eu fiz muita coisa. Me entreguei a vários homens, mulheres… No início, tudo sempre parecia bom e eu me iludi. O padrão era sempre o mesmo: eles vinham e sumiam. Aí eu ficava infeliz. E com o tempo, comecei a me cansar disso. Eu via minhas amigas casando, com seus vestidos longos, felizes, com seus maridos bondosos, presentes e amigáveis. E eu comecei a querer isso também, mas não encontrava, até que me lembrei de você! Você, Arthur! Com suas peças, livros e filmes, sua companhia, sua bondade. E quando eu dei por mim, comecei a chorar tanto! Fiquei três dias chorando. Pensei nas coisas que me disse, na sua sinceridade desajeitada, mas tão verdadeira. E me arrependi. Por isso que eu te procurei. Porque você era o amor da minha vida. Porque você me disse que “seria um sonho namorar comigo”. E mesmo que eu tivesse uma chance remota, eu preferi arriscar. Então por favor…

ARTHUR - Olha, não é porque você fez coisas de que se arrepende, que eu tenha que me submeter só porque você quer. Ainda mais porque você se afastou de mim. Sinto muito, mas faz cinco anos.

BRENDA - Vamos esquecer o passado! Começar do zero! Eu vou ser a sua namorada e a gente volta a ir ao teatro, como sempre fizemos!


Brenda tenta puxar uma informação da memória.


BRENDA - Plínio Marcos! Eu lembro que você adorava ele. Nós vimos “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, na última vez que nos vimos. Será que vai ter alguma montagem nova? A gente podia ir ver né?

ARTHUR - Não, Brenda.

BRENDA - E como fica o meu filho?

ARTHUR - Você tem um filho?

BRENDA - Agora eu tenho. É aquele menino brincando na areia.


Ela aponta o dedo.


ARTHUR - Bonitinho. Lembra você.

BRENDA - Obrigada.

ARTHUR - Agora entendo porque você me procurou: você precisava de alguém como eu.

BRENDA - Isso.

ARTHUR - Um trouxa.

BRENDA - Não! Você não é trouxa: você é um bom homem. É honrado, honesto, gosta de mim sinceramente. Você é um excelente partido e vai gostar do Enzo, ele gosta de coisas culturais, fica vendo tv o dia inteiro. É só uma criança inocente. E ele precisa de um pai.

ARTHUR - E o dele, onde está?

BRENDA - Não sei, não presta. Paga pensão, mas não quer saber dele.

ARTHUR - E você acha que eu poderia fazer esse papel?

BRENDA - Sim! Melhor do que qualquer outro!

ARTHUR - E pensar que você não me quis porque eu era alguém que queria ter uma família.

BRENDA - Eu não pensei direito, mas nos momentos de solidão, eu me lembrava de você e da sua proposta. De como a gente se dava bem: podíamos fazer companhia um ao outro!

ARTHUR - Foi o que eu te disse à época. Você só está me propondo isso porque quer me usar pra consertar uma vida que você mesma destruiu. Duvido que até mesmo sinta algo por mim. Você mesma disse que não sentia antes.

BRENDA - O que eu sinto por você é uma admiração e um respeito muito profundos. E eu nunca faria algo que o meu coração não mandasse. Pode não ser o mesmo tipo de atração que eu sentia aos 25 anos, mas é, ao seu modo, uma forma de atração. Arthur, você não sabe como é ser amado por mim, não sentiu o meu carinho, o meu calor. Saiba que eu saberei como lhe agradar. Seremos felizes como deveríamos ter sempre sido. Teremos algo maior do que a nossa amizade: amor, algo que redime e fecha todas as feridas. E não peço que cuide do meu filho, mas sim de mim.


Brenda se levanta e caminha até Arthur. Ela toca os braços dele com as mãos, depois repousa a cabeça em seu peito.


Arthur a beija.


BRENDA - Então é assim o amor verdadeiro?

ARTHUR - Não, é só uma demonstração de poder. Eu fiz porque eu quis e não preciso continuar. Como falei antes: nosso tempo passou e o meu amor por você só foi verdadeiro antes, não agora.

BRENDA - E quanto a nossa amizade?

ARTHUR - Não sei se o que a gente teve poderia ser considerado uma amizade. Bastou eu me declarar e você sumiu. Se não fosse você ter me procurado, nós nunca mais teríamos nos visto.

BRENDA - Eu tive medo.

ARTHUR - Do quê?

BRENDA - Que você passasse do limite.

ARTHUR - Isso prova que você não me conhece. Segundo, que no fundo você me despreza. Eu não acho que um interesse sincero devesse ser punido com um afastamento, como se eu fosse algum tipo de leproso. Me pergunto se você deu esse mesmo tratamento aos outros que passaram pela sua vida e te abandonaram. Esses sim deveriam ser tratados desse modo.

BRENDA - De certo modo, você tem razão. Por outro, não é assim que as coisas funcionam. Eu não tinha olhos pra te ver na época. Eu era jovem, mas todos nós quando somos jovens fazemos coisas que nos arrependemos depois. Essa é a verdade. E é como você me disse aquele dia: “a verdade não é conveniente”. Talvez eu devesse ter sido mais prudente antes, mas agora eu sou.

ARTHUR - Eu não entendo o que passava pela sua cabeça quando saíamos juntos, vendo aquelas peças. Não é que uma amizade seja impossível, mas acho que você foi um pouco ingênua de sair tanto com um homem solteiro e pensar que ele não iria se interessar.

BRENDA - É que a maior parte das pessoas que eu conheço não se interessa por teatro. E eu gostava de sair contigo.

ARTHUR - Eu também gostava. Mas eu também fui ingênuo. As mulheres costumam ser implacáveis com os seus interesses: escutam o próprio coração sem pensar nas consequências. Me pergunto o que aconteceria se agíssemos do mesmo modo.

BRENDA - Será que a gente não poderia só assistir a uma peça então? Como nos velhos tempos?

ARTHUR - Não posso. Eu vou sair com uma outra moça: o nome dela é Milena, já saímos outras duas vezes. Me parece ser uma boa pessoa, vamos ver no que vai dar. E se não der, parto pra próxima. Se cuida, Brenda.


Arthur sai.

Brenda se senta no balanço.

Entra uma CRIANÇA:


CRIANÇA - Mamãe! Mamãe!


Trevas.


 
 
 

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