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AVENIDA REPÚBLICA ARGENTINA

  • raphaeldejesusreda
  • 8 de mar.
  • 8 min de leitura

Monólogo por: Raphael de Jesus


Dentro de uma estação-tubo em alguma altura da Av. República Argentina, em Curitiba, por volta das duas da manhã.


MERCEDES, 25 anos, argentina, está encostada no assento, segurando uma mala de viagem, esperando pelo biarticulado. Ela fala um português perfeito, mas às vezes podemos notar alguma sobra de sotaque espanhol.


Eu matei meu pai.


Foi agora há pouco, com uma faca da cozinha. Ele tentou impedir que eu me matasse, me segurando, mas eu acabei enfiando a faca nele, de raiva.


Dei uma estocada firme, bem no meio do coração. Ele caiu e o sangue começou a jorrar do peito, o rosto foi ficando roxo e os olhos arregalados. Só deu tempo dele pronunciar uma única palavra: BALVANERA. Não entendi o que ele quis dizer com isso, foi a última palavra que o meu pai falou.


Eu fiquei parada por um momento, em estado de choque.


Matar uma pessoa não é algo para o qual se esteja preparada. Eu simplesmente parei de sentir e comecei a ver as coisas de um modo muito objetivo: aquele era o cadáver do meu pai e não havia mais o que fazer.


Então eu peguei a minha mala e vim pegar um ônibus, porque estou com a passagem comprada pra voltar pra Argentina.


Eu não sou daqui, nasci em Buenos Aires e vim pra Curitiba ainda pequena, com o meu pai. As coisas não estavam boas no campo econômico, aliás, nunca estiveram, desde que eu me lembro, nós sempre fomos pobres. Mesmo com um diploma de técnico em informática, o meu pai sempre vivia pulando de emprego em emprego. Às vezes ficava um ano e então era demitido. Outras vezes, ele se demitia, em busca de algo melhor.


As coisas nunca foram fáceis na minha família, a começar pelo fato de que eu nunca conheci a minha mãe. Ela morreu durante o meu parto e sempre foi difícil pro meu pai cuidar da casa, tanto no financeiro como no emocional, e ele sempre foi muito fechado. Meu pai era uma pessoa que nunca transparecia infelicidade, ele sempre conseguia deixar as coisas pra trás. Eu mesma sou diferente: nunca consegui.


Nós tínhamos uma família grande: minhas tias moravam junto com os meus vários primos, além do meu avô, que era um pouco doente e vivia com a gente.


O meu avô Martín era o homem mais doce do mundo. Torcedor fanático do River Plate, vivia com um bonezinho do time, que ele não tirava nunca pra esconder a careca, coitado. Ele tinha a fala mansa e parecia que sabia de tudo da vida, estava sempre a dar conselhos para todos. Ele também era a pessoa mais descolada que eu já conheci. Sempre chamava a todos de “man”, até as meninas, nunca entendi o porquê também, mas achava engraçado: “?me entendés, man?”, era o bordão dele.


Ele foi a pessoa que me apresentou ao cinema, me levava todas as semanas, com o dinheiro que sobrava da aposentadoria. Vi o Harry Potter, o Senhor dos Anéis, muitos filmes. Ele era o meu melhor amigo.


Desde que chegamos ao Brasil, eu nunca mais o vi e já se vão mais de 15 anos. Fomos perdendo o contato e, com isso, as memórias também.


Nós saímos de lá de mala e cuia, é assim que se fala no Brasil, não? Chegando aqui, a nossa situação, que já era ruim, ficou ainda pior: dividimos um quartinho numa pensão, com um banheiro ainda menor e sombrio, com uma daquelas privadas com cordinha, sabe?


Assim como na Argentina, meu pai tentou de tudo. Tentou ser lixeiro, zelador, até que conseguiu trabalhar numa barraquinha de cachorro-quente e foi onde as coisas começaram a se acertar para nós. Com o tempo, ele fez valer o diploma que tinha e conseguiu um emprego dando aulas em um daqueles cursos profissionalizantes que tinham nos anos 2000. Foi lá onde ele conheceu a Kátia.


Depois que eles se casaram, as coisas mudaram bastante.


Não é que ele não fosse um bom pai, nada me faltou, exceto pela relação que tínhamos antes.


A Kátia era uma mulher expansiva, ambiciosa, foi ela quem incentivou ele a abrir um negócio, o que mudou realmente o nosso padrão de vida.


E foi aí que ela mostrou a sua verdadeira natureza: uma mulher fútil, que só pensava em cirurgias plásticas.


Não entendo porque nesse país se faz tantas plásticas, porque a Kátia não era uma mulher feia. Ela era alta e loura, mas com pouca personalidade. Primeiro foi o silicone, depois a abdominoplastia. E, por fim, o ácido hialurônico nos lábios e nas bochechas. A cada cirurgia ela parecia inchar cada vez mais.


Mas eu nunca me dei bem com ela, apesar dela ter se esforçado um bocado pra ter amizade comigo. É que eu nunca deixei. Compreendam, é difícil ter duas mulheres na mesma casa, ainda mais quando ela não é a sua mãe e tenta ocupar esse papel. E isso fez com que eu nunca tivesse nenhum respeito, carinho ou empatia por ela.


Acho que o meu pai conseguiu o que ele queria.


Nós passamos a ter uma vida muito boa, totalmente diferente do que era na Argentina. Mas eu não posso dizer que eu era genuinamente feliz. Sempre pareceu que me faltava alguma coisa.


Até que hoje a tarde aconteceu algo que eu não estava esperando: eu saí do meu quarto para ir até a cozinha comer alguma coisa e encontrei o meu pai falando ao telefone - em espanhol.


Fazia mais de dez anos que eu não ouvia o meu pai falar na nossa língua.


Desde que aprendemos o português, e muito também pela presença da Kátia, nós praticamente não falávamos mais e eu fui me esquecendo.


Foi só eu ter me aproximado que então ele desligou o telefone e ficou meio sombrio.

Perguntei se havia acontecido algo e ele disse que não era nada demais, que estava conversando com um dos funcionários da empresa.


Mas eu logo percebi que ele estava escondendo alguma coisa.


Chamei a Kátia e contei tudo, pela primeira vez nos unimos em uma causa em comum. E depois de tanta insistência, ele resolveu falar: ele não estava falando com um de seus funcionários, mas sim que tinha recebido a notícia da morte do meu avô.


Inicialmente, fiquei arrasada, mas a distância de alguma forma me protegeu. No entanto, aquelas palavras desencadearam muito mais do que só o sentimento de tristeza, mas sim o de saudade, uma saudade tão forte que todas as minhas memórias começaram a voltar: eu me lembrei da minha escola, da minha casa, dos meus amigos, da minha família. 


E pela primeira vez em todos esses anos eu quis voltar, voltar pra Argentina.

Mas quando eu sugeri isso ao meu pai, ele não quis.


Disse que era um lugar caindo aos pedaços, que não tinha oportunidade nenhuma e que aqui era muito melhor. O passado havia ficado pra trás.


Engraçado.


A Kátia vivia dizendo que queria que fôssemos viver em Portugal, porque as coisas não estavam tão boas por aqui também.


Parece que quando as coisas estão difíceis, as pessoas dão um jeito de fugir pra não ter que lidar com elas. Como se fosse parte de um instinto. Só que não há um porto-seguro no mundo em que não tenhamos que lidar com os nossos problemas.


Então eu perguntei a ele se não queria ir ao enterro do próprio pai. E ele me disse, com essas palavras, que o “meu avô era um vagabundo que punha os filhos pra trabalhar enquanto ele gastava o dinheiro com álcool e apostas, que batia nele e nas minhas tias se fosse contrariado”.


O meu pai e o meu avô me amavam, mas não posso dizer que eles tivessem o mesmo sentimento um pelo outro.


Eu sempre achei que isso fosse por causa de política.


Meu avô era um peronista ferrenho e militou muito em sua juventude. Ele tinha ficado coxo da perna direita, após ter sobrevivido a um dos bombardeios durante o Massacre da Plaza de Mayo. Qualquer ideia que contrariasse as suas opiniões seria duramente reprimida.


Já o meu pai pensava diferente: queria ganhar dinheiro e ter uma vida melhor do que a que tínhamos, mas ele sempre teve muita dificuldade em viver do próprio sonho.


Nunca me esquecerei de uma briga entre os dois uma vez. Pra variar, estávamos com problemas financeiros em casa, e o meu pai sugeriu ao meu avô que voltasse a trabalhar.


Ele não respondeu, apenas cantou:


“¡Perón, Perón, qué grande sos!

¡Mi general, cuanto valés!

¡Perón, Perón, gran conductor

sos el primer trabajador!”


Mercedes para por um momento, imersa em seus pensamentos.


Passei a tarde tentando falar com o meu pai, mas ele foi se fechando cada vez mais.

A Kátia até tentou me dissuadir, mas isso não era assunto pra ela.


Eu até podia não saber algo sobre o meu pai, já sobre ela eu sabia: disse que ela não tinha moral pra bancar a esposinha leal porque eu sabia que ela estava traindo meu pai com um dos nossos funcionários, e que vi tudo em seu celular.


Ela não sabia onde esconder a cara, mas ao invés de brigar comigo, ela deu uma cartada final: ou ela ou eu. Sem resposta, ela decidiu por ele e partiu na mesma hora.


Eu também quis fazer o mesmo. Só que eu não queria mais fugir dos meus problemas e queria recuperar a parte que me faltava. Pra mim, ter uma identidade é quase tão importante quanto respirar.


Comprei as minhas passagens e estava decidida a voltar pra Argentina, pra ir até o enterro do meu avô. Já que o meu pai preferia fugir do passado, eu não iria fugir mais.


Foi aí que ele me contou um segredo. Um segredo terrível.


O segredo que o meu pai guardava desde a minha infância era que o meu amado avô tinha abusado de mim quando eu era pequena!


Mercedes chora.


Desde o início da minha adolescência eu sofro com uma ansiedade tão forte que às vezes não consigo agir. Passei da infância até a idade adulta frequentando psicólogos como se fosse a minha segunda casa, tomando remédios como se fosse parte da minha alimentação. Eu vivi boa parte da minha vida num estado de torpor e sem saber o porquê.


Quando eu perguntava pro meu pai porque isso estava acontecendo comigo, ele só conseguia me dizer que iria passar mais cedo ou mais tarde e que era parte da vida.


Eu me ajoelhava todas as noites diante da minha cama e pedia: “Senhor, eu só queria ter uma vida mais tranquila, queria saber porque eu me sinto assim”. Eu queria que Deus tirasse isso da minha vida como alguém que tira um tumor maligno, mas fiquei anos em um estado de dúvida profundo.


Eu não acreditava em como alguém da minha própria família, alguém que sempre me tratou tão bem pudesse fazer algo assim comigo. E pior, como o meu próprio pai pode me esconder isso por tanto tempo, sabendo que eu definhava pouco a pouco.


Como alguém pode viver dessa forma? Longe da minha verdadeira casa, sem pessoas em quem confiar e sem uma identidade! A minha vida era como se fosse um conto de fadas melancólico, porque tudo era idealizado, mas nada era perfeito.

Então eu só consegui ir pra cozinha e pegar a faca.


Eu estava pronta pra cortar o meu pescoço e lavar o tapete com o meu sangue corrompido.


Olhei pro meu pai e ele deu um salto na minha direção, segurando o meu braço a ponto de me machucar, mas não importava o que ele fizesse, porque a minha força tinha ficado dez vezes maior naquele momento. Eu jamais soltaria aquele faca.

E agora está feito.


Mercedes anda pelo espaço e se comunica com um cobrador, que não vemos:


Com licença? Falta muito pro ônibus chegar?


Mercedes volta até o ponto onde estava.


Já são duas da manhã e o cobrador pegou no sono…


Chega a ser irônico pensar que eu estou pegando um ônibus justamente na Avenida República Argentina. O passado sempre volta pra te assombrar e eu cansei de fugir dele.


BAL-VA-NE-RA.


O que ele queria dizer com essa palavra? BALVANERA… BALVANERA… BALVANERA… Sim! Eu sei o que é BALVANERA: era o bairro onde morávamos em Buenos Aires! O bairro onde eu cresci e que desencadeou esses trágicos eventos!

BALVANERA é a peça final do quebra-cabeça da minha vida! Eu vou voltar pra Argentina e reconstruir tudo, do zero, desde BALVANERA, o lugar de onde eu jamais deveria ter saído!


Deixo tudo pra trás, esse país maldito, essa vida falsa, o meu pai morto e vou me reencontrar com quem eu sou de verdade!


Ah! É o meu ônibus chegando! Adiós, hasta luego!


Em off: “Próxima Parada, Estação Dom Pedro II, desembarque pelas portas 2 e 4. Evite permanecer na porta 3 para facilitar o embarque”.


Mercedes entra no ônibus.


Trevas.

 
 
 

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