MORTE DE UM QUALQUER
- raphaeldejesusreda
- 1 de fev.
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Por: Raphael de Jesus
-Perdemos o Maranhão cara! - Era uma mensagem de Cauby, às 07:35 da manhã de Sexta-Feira Santa.
Rodrigo aproveitou o feriado para dormir até bem depois do horário. Como de costume, pegou o celular, que estava carregado em uma tomada próxima ao pé da cama, e zapear em alguma coisa na tentativa de ir despertando aos poucos, quando se deparou com a fatídica notícia:
José Evilázio de Freitas, o Maranhão, falecera durante a madrugada de um infarto fulminante. Quarenta e cinco anos, casado e pai de um rapazinho de treze anos, era assistente de produção em uma fábrica de acessórios automotivos em Pinhais - PR. Apesar do apelido, era natural de São José do Rio Pardo - SP. Ninguém sabia ao certo porque ele era chamado assim e a maioria das pessoas que trabalhavam com ele na fábrica nem sabiam qual era o seu nome verdadeiro. Era apenas Maranhão e o nome pegou. De “ão” não tinha nada: era um homem de aspecto franzino e sem graça, apesar da força física devido aos ossos do ofício. Também não falava muito. Rodrigo mal o conhecia, até mesmo porque trabalhava no setor de marketing, e, nos três anos em que conviveu com ele na empresa, sua comunicação era estritamente profissional, salvo uma piada ou outra em horário de almoço.
-Puxa, que pena! Tinha falado com ele semana passada - foi só o que Rodrigo conseguiu responder, antes de se sentar na cama e acordar em definitivo.
Pensou ter sido insensível, afinal uma notícia de morte, ainda por cima de alguém com quem se teve contato próximo, é sempre uma surpresa, mas ele não conseguia sentir nada mais do que a consciência do fato negativo.
-Endereço do velório: Cemitério Parque Jardim da Saudade, Av. Maringá, nº 3300, Pinhais - PR. Horário: 17h. Você vai né? - Cauby intimou.
-Não sei cara, tô meio cansado.
-Quer que eu vá te buscar?
Rodrigo demorou a reagir, não queria ir. Maranhão não era uma pessoa importante em sua vida e até nutria por ele um certo desprezo, devido a uma vez quando foi surpreendido por ele aos gritos, após ter mexido, sem permissão, em algumas de suas ferramentas enquanto fazia um story para as redes sociais da empresa, sendo obrigado a devolvê-las no mesmo lugar de onde pegara.
Por um momento, pensou que a morte lhe servira como punição pelo ato, mas não permaneceu nesse sentimento por muito tempo. Não tinha uma natureza mesquinha ou vingativa, mas isso lhe fez pensar sobre a brevidade da vida e da inutilidade das ninharias. Sentiu culpa por ter pensado desse modo, mas logo concluiu também que o assunto não merecia muito mais atenção além da obrigação moral de se ter pena por uma vida que se foi.
No entanto, era preciso responder Cauby e protelar ao máximo, até ter uma ideia clara do que dizer.
Fez os afazeres matinais: a higiene pessoal, tomou café da manhã e conversou com sua família sobre o ocorrido. No fim das contas, concluiu que deveria ir, não apenas pelo respeito ao colega que partiu, mas também para evitar um clima ruim no trabalho quando voltasse das férias.
-Não precisa, eu pego um Uber - ele respondeu no WhatsApp.
*
À tardinha, o tempo estava nublado.
O Uber foi entrando lentamente pela passarela do Parque Jardim da Saudade, por entre gramados bem aparados e flores variadas que davam ao ambiente um clima tanto agradável quanto lúgubre.
Saindo da carona, Rodrigo andou alguns metros e passou pela recepção, cruzando caminho com várias pessoas desconhecidas, algumas chorando, outras conformadas, porém, sempre fuzilando-o com olhares fortuitos, como se ele fosse um intruso - e de fato o era. Velórios não fazem bem a ninguém e a tristeza contamina. Conforme ele andava, sua mente ia ficando anuviada.
Depois de passar por uma comitiva de coroas de flores, ele encontrou Cauby em frente à entrada da capela. Era estranho ver o amigo do trabalho, aquele homem alto e opulento, afundado em lágrimas. Mesmo sendo baixinho, Rodrigo lhe deu um abraço caloroso:
-Valeu por ter vindo, mano. - Cauby agradeceu.
-Imagina amigo, tamo junto.
Cauby andou para o lado, abrindo o espaço para o interior da capela, que não se parecia em nada com um ambiente religioso, mas sim com um saguão de hotel em algum evento, pela expressiva quantidade de participantes. Na entrada, um registro de presenças anunciava: “Com pesar nos despedimos de José Evilázio de Freitas, o querido Maranhão”.
Em volta do caixão estava toda a turma do setor de produção: Reginaldo, Zé Roberto, Negão, Wender e Gilberto, que trabalhavam com Maranhão fazendo peças automotivas, acompanhados de suas esposas, além dos membros dos demais setores da empresa, a diretoria e até mesmo o dono da fábrica.
Por entre abraços e apertos de mão, Rodrigo passou um por um prestando condolências em meio a um coral de prantos. O abraço mais difícil foi em Valdivina, a esposa do Maranhão, e no filho do casal, o jovem Ryan.
Depois, ficou contemplando o que sobrara daquele homem, no caixão, e por incrível que pareça, sua aparência estava melhor do que quando estava vivo, com um aspecto mais inchado, como se tivesse recuperado o viço que não tivera nos anos finais.
-Vai com Deus, meu amor - disse a viúva ao lado do caixão, enquanto segurava o braço imóvel e frio do falecido.
*
Na manhã seguinte, o corpo foi cremado.
Todos os participantes do velório compareceram à cerimônia, incluindo Rodrigo, por nova pressão de Cauby. No corredor estreito e abarrotado, alguns ficaram em pé, enquanto outros se sentaram em cadeiras ou mesmo no chão, por entre conversas baixinhas e prantos contidos. Valdivina estava com o olhar perdido, enquanto estava de mãos dadas com Ryan, sentados em cadeiras perto de uma porta. Já Rodrigo, permanecia em silêncio, se distraindo em seu celular.
O caixão surgiu transportado em uma maca por três agentes funerários de aparência austera. Conforme avançavam, o clima foi ficando pesado: a maioria das mulheres começou a chorar, amparando-se umas às outras ou aos maridos.
-Vai com Deus, Maranhão! - gritou Reginaldo.
-Obrigado por tudo, meu amigo - disse Wender, segurando as lágrimas.
-A gente vai cuidar da fábrica pra você, do jeitinho que você gostava - disse o Negão, arrancando alguns risos dos amigos e contribuindo para tornar aquela atmosfera menos pesarosa.
Aldair Gama, o dono da fábrica, deu um passo à frente e bradou com sua voz grave de ex-militar:
-Grande homem!
O tom solene trouxe maior consolo aos presentes.
-Grande homem! - gritou Gilberto, enquanto o caixão percorria os metros finais.
Valdivina não conseguiu olhar para o caixão, escondendo o rosto por trás das palmas das mãos, soluçando.
-Grande homem! - outros presentes o saudavam, enquanto o caixão adentrava à sala de cremação.
Um dos agentes interrompeu o coro para perguntar se alguém gostaria de ligar o forno.
-Eu faço questão! - bradou Aldair Gama.
Ele deu um caloroso abraço em Valdivina e Ryan e em seguida acompanhou os profissionais até a sala fechada aos demais, mas com uma janela na porta por onde alguns poderiam assistir ao ritual.
A sala ascética e plácida contrastava com o ambiente anterior, parecendo a recepção de uma clínica, com duas cadeiras confortáveis e solitárias encostadas em uma parede onde havia uma bela pintura pendurada de Nossa Senhora segurando o menino Jesus. Noutra parede havia duas portas metálicas - eram os fornos do crematório.
Os agentes abriram a tampa de um dos fornos e colocaram o caixão dentro, selando-o para o seu destino iminente. Em seguida, orientaram o dono da fábrica a girar um botão à temperatura de 900ºC, que cumpriu a ordem sem pestanejar.
As chamas se acenderam e começaram a incinerar o corpo que um dia pertencera ao Maranhão.
-O processo vai demorar umas três horas ou mais. O senhor pode pedir aos demais que voltem pras suas casas. Vamos entrar em contato com a família para a retirada das cinzas.
O empresário agradeceu e apertou as mãos dos cremadores, parabenizando-os pelo trabalho e atenção impecáveis prestados aos familiares e amigos do falecido.
*
Rodrigo, que tinha pretensões literárias, passou o resto do feriado prolongado na companhia dos grandes mestres da nossa literatura, para aprender mais sobre a cultura brasileira. Desejava escrever um romance sobre o Brasil do Século XXI e aproveitava as folgas para aos poucos ir se movendo em direção a esse objetivo. Essa era a sua verdadeira vida, muito diferente de suas obrigações laborais e das conversas triviais que tinha com seus colegas do marketing ou com os peões da produção. A imensa maioria dos escritores possui vidas duplas, com sucesso ou sem sucesso, com talento ou não, portanto, ele não fugia à regra. Com isso, todo aquele período fúnebre e solenidades compulsórias foram se esvaindo, dando lugar à vida normal.
De volta à empresa, descansado e pronto para os compromissos habituais, o ambiente não parecia mais o mesmo: os colegas pareciam insatisfeitos, realizando o trabalho de modo robótico. E na fábrica, as conversas paralelas continuavam, mas sem o clima alegre de antes.
-”Pô, saudade do “Maranhãozinho…” - frase nostálgica repetida por Cauby várias vezes ao longo do dia, lembrando de causos vividos em sua companhia no trabalho.
No fim do dia, Aldair Gama convocou todos os funcionários para uma série de anúncios: decidira renomear a biblioteca da empresa como “Biblioteca José Evilázio de Freitas”. Por incrível que pareça, uma fábrica de peças automotivas pode sim ter uma biblioteca e esta podia fazer inveja a muitos sebos, livrarias e bibliotecas públicas, com coleções completas de Guimarães Rosa, Marcel Proust, Franz Kafka e Fiódor Dostoiévski. Naturalmente, a maioria dos funcionários a utilizava como sala de descanso, por conta das confortáveis. Rodrigo era o único funcionário que lia aqueles livros. E agora, aquele homem que não havia terminado o ensino fundamental, nomeava uma biblioteca.
O segundo anúncio importante era a criação da linha de ponteiras automotivas “Maranhão”, com um design exclusivo. Ponteiras são acessórios de embelezamento automotivo: uma peça de aço inox, altamente resistente, que é acoplada ao escapamento do carro, dando um visual mais agradável.
Por fim, o empresário retirou por trás de um pano um belo retrato do Maranhão, que passaria a ornamentar a sala da diretoria.
As novidades foram recebidas de modo efusivo, com palmas e assovios, mas principalmente sorrisos, e a alegria voltou a aquele ambiente sem vida. A satisfação se tornou maior ainda quando o dono da empresa anunciou um churrasco de homenagem no fim de semana, para honrar aquele “grande homem”, nas palavras dele.
*
Quando ouviu aqueles anúncios e a recepção dos colegas, Rodrigo ficou perplexo: como poderia o Maranhão, aquele homem humilde e sem personalidade, ser tão amado por aquelas pessoas todas? Como poderia ser chamado de “grande homem” se seus feitos não iam além de seu trabalho ordinário, feito de igual ou pior modo em comparação aos demais?
Voltou para casa com um aperto no peito e um gosto amargo na garganta. Mal conseguiu tocar nos livros, escrever algumas linhas ou falar com a família. Só conseguia pensar no quanto aquele ambiente lhe parecia desagradável e no quanto queria se afastar daquela gente.
No dia seguinte, pediu a conta. Inventou uma viagem para outro estado e preferiu recusar uma proposta de aumento. Nenhum dinheiro poderia lhe aplacar aquele desgosto. Não demorou a encontrar outro emprego, bem como a retomar a busca de seu sonho.
A conclusão sobre o que acontecera só lhe ocorreu anos mais tarde: o Maranhão, aquele homem qualquer e desinteressante, apesar de ser um homem comum, era trabalhador e honesto, tinha uma bela família e vários amigos, portanto, era aquilo que se chama de um bom homem. Nada mais e nada menos do que aquilo que se espera da maioria das pessoas. E se aquele bando de medíocres o clamavam como um “grande homem”, assim o fizeram por terem-no elegido o seu campeão.
Afinal, se ele era um grande homem, o que dizer então de D. Pedro II ou do Duque de Caxias?
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